O João tem agora 5 anos e tem diabetes tipo 1 desde os 21 meses. Neste espaço partilho tanto as minhas alegrias e as minhas conquistas, como os meus receios e tristezas em relação à diabetes do meu filho, na esperança de que a minha história ajude outros pais de crianças com diabetes.















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terça-feira, 13 de março de 2012

Reações contra glicémias altas

Lidar melhor com glicémias desequilibradas é uma luta diária minha. Agora já consigo não agir como se houvesse um incêndio sempre que o João tem uma hipoglicémia. Corrigo, explico-lhe o que está a acontecer (até para ele tomar consciência daquilo que sente nessas alturas e dar o alerta mais facilmente) e pronto.

Está a ser mais difícil fazer o mesmo para glicémias altas. Porque comento sempre em voz alta ou faço perguntas para tentar perceber o que as causou e acabo por expressar a minha frustração.

No domingo passado, o João começou a ter glicémias altas a meio da tarde e nunca mais desciam. Sempre a rondar os 200 e os 300. Não consegui encontrar nenhuma explicação para aquilo. Como ele tinha estado a jogar um jogo de vídeo e se enervou um pouco, pensei que era essa a explicação. Comecei logo a protestar. O diálogo foi mais ou menos assim:

- Oh João, aquele jogo não faz bem à saúde, filho!
- Mãe, mas é só um jogo, não é nenhuma infestação!
- Eu sei que não é nenhuma infeção, mas tu enervas-te e as glicémias sobem. Olha, se eu encontrasse essas glicémias dava-lhes uma dentada no nariz, onde é que estão essas glicémias, hum?
- Oh mãe, mas as glicémias estão no meu coração!

Esta última frase já foi dita com um ar preocupado, não se pense que era alguma piada. Moral da história, o meu filho de 5 anos deu-me mais uma lição: as glicémias altas fazem parte de mim e se te zangas com elas eu sinto que estás zangada comigo.

Trabalho de casa: continuar a tentar manter as glicémias controladas, mas deixar de me chatear sempre que as coisa não correm como eu queria.

P.S. Afinal as glicémias altas foram causadas por uma constipação que só se manifestou no dia seguinte e não pelo jogo de vídeo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Com as glicémias aos pulos

O João esteve quase um mês com as glicémias quase perfeitas durante o dia (as noites nunca deixaram de ser complicadas). De repente, tudo mudou. Há 4 dias que passa grande parte do dia com glicémias de 300. Ainda esperei 3 dias, para ver se seria alguma infeção que se estava a formar, mudei o cartuxo da humalog e nada... Talvez seja por ter crescido, dado um pulo, como costumamos dizer...

Já aumentei a lantus à ceia, mas ainda não fez grande efeito. Pela minha experiência só faz verdadeiramente diferença 3 dias depois. Por isso, vou aguardar e vou aumentando as doses da humalog às refeições. Mas tenho andado com medo de arriscar com a humalog. Como digo sempre, o medo é o nosso pior inimigo e esta é uma prova disto.

Enfim, moral da história: nada dura para sempre na vida e na diabetes ainda é pior. Por isso, uma das melhores qualidades que podemos ter no que toca a manter as glicémias controladas é ter a capacidade de nos adaptarmos rapidamente às novas regras...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Às voltas com as glicémias nocturnas...

Há meses que ando a tentar controlar as glicémias do João durante a noite. Tem sempre tendência para ter valores muito altos (a rondar os 200 ou acima disso) ou então hipoglicémias sucessivas (embora as hipos sejam muito menos frequentes do que as hipers). A coisa piorou quando estavamos de férias, na praia. Ele chegava à ceia com valores exemplares, deitava-se com valores óptimos, uma hora depois estava com 300 e tal. Comecei a ter que dar humalog para corrigir esses valores todos os dias, por volta da meia noite (e passar o resto da noite em alerta, com medo do que poderia acontecer).

Quando tivemos consulta de novo, no final de Agosto, a médica decidiu diminuir a Lantus (passar de 7 para 6 unidades ao deitar) e dar insulina rápida à ceia também. Resultado: desastre! Valores altos todas as noites e glicémia em jejum sempre acima de 160.

Agora voltámos a dar as 7 unidades de Lantus. Mas mesmo assim não consigo acertar com estas glicémias. Nas duas últimas noites, chegou à ceia com 70. Na primeira noite comeu duas porções de HC e levou meia unidade de humalog. Resultado: toda a noite com 200 e acordou com 169. Na segunda noite (esta noite) dei-lhe só uma porção de HC e a mesma meia unidade de humalog. Á meia noite tinha 135. Dei-lhe meia porção de HC, por precaução; às 2h00 tinha 235, fiquei descansada; acordou com 54.

Que desespero!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Hemoglobina glicosilada (de novo!)

O João voltou a fazer análises ao sangue e recebemos o novo resultado da HA1c: 8.3.

Apesar deste valor estar longe do ideal (a nova médica do João apresentou-nos como meta 7.2, tendo em conta que o João tem apenas 4 anos), é a primeira vez, em 2 anos e meio de diagnóstico, que temos um valor abaixo de 9.4.

Para nós é uma pequena vitória, um sinal de que estamos a aproximar-nos do nosso objectivo.

A mudança deveu-se a uma alteração nas rotinas do João:

Agora damos a insulina sempre dez minutos antes de iniciar a refeição e, se a glicémia estiver acima de 110, esperamos ainda mais tempo. Fiz várias experiências entretanto e percebi que, se ele estiver com uma glicémia muito alta, a rondar os 200, meia hora depois de lhe darmos a insulina, a glicémia desde para 100, sem ter comido nada. Isso abriu-me os olhos: se ele tem 200 e come logo a seguir a ter recebido a insulina, a glicémia vai subir bastante ao longo da refeição. Só essa mudança fez uma grande diferença!

Outra alteração que fizemos foi diminuir a quantidade de comida que ele come à ceia (agora só come um equivalente, uma porção de Hidratos de carbono) e começámos, confesso que ainda com algum receio, a dar-lhe alguma insulina rápida à ceia. A gestão dos valores nocturnos é um aspecto que temos de melhorar. Ainda não conseguimos um equilíbrio...

Também deixámos de medir as porções de hidratos de carbono "a olho", começámos a pesar e a medir tudo o que o João come (em casa) e realmente resulta melhor...

Quanto às hipoglicémias, neste momento corrigimos a hipo com açúcar, esperamos 10 minutos, verificamos se a glicémia já subiu e damos-lhe uma porção de hidratos de carbono sem insulina rápida ou a refeição e a insulina rápida para cobrir o que vai comer, se estiver na hora de uma refeição. Isso fez toda a diferença. Nunca mais tivemos uma hiper a seguir a uma hipo, como acontecia frequentemente.

Também alterámos a proporção insulina-Hidratos de carbono. Até aqui, dávamos meia unidade de insulina rápida para cada equivalente ou porção de hidratos de carbono. Neste momento, para cada duas porções de HC damos 1,5 u de insulina durante o dia e mantemos o esquema anterior ao jantar e ceia.

Pela primeira vez em tantos anos de diagnóstico, tenho a certeza de que vamos conseguir boas glicémias e uma boa HA1c.

A minha mensagem para os pais que estejam a lutar sem conseguirem baixar a HA1c é: procurem ajuda junto do médico. Se sentirem, como eu sentia, que não estão a ser bem acompanhados pelo vosso médico, procurem outras soluções. Há muito que depende de nós, mas sozinhos não conseguimos resolver tudo.

domingo, 6 de março de 2011

Hormonas de crescimento e glicémias

Nos últimos três dias, o João tem andado com os valores mais altos do que é hábito. Com as quantidades de insulina que lhe costumo dar, tem sempre os valores a rondar os 200.

Essa é uma das dificuldades que temos de enfrentar: as regras estão sempre a mudar e temos de estar atentos e de conseguir adaptar-nos rapidamente. Isso é bem difícil. Quando consigo acertar na dose de insulina para determinada refeição fico tão contente e preparo-me logo para aplicar a mesma regra da próxima vez. Resulta durante uma semana, mas na semana seguinte muda tudo de novo... Por vezes interiorizo a regra tão bem que custo a aperceber-me que ela já não está a resultar.

Um dos factores que afecta as glicémias do João ciclicamente são os surtos de crescimento. Quando eles crescem muito rapidamente (aquilo a que costumamos chamar "dar um pulo") o nível das hormonas de crescimento aumenta e isso aumenta a necessidade de insulina.

Acho que é isso que está a acontecer agora. Geralmente espero dois ou três dias para decretar uma alteração de padrão, para ter a certeza de que os valores mais altos não se devem a algum nervosismo ou excitação de um dia em especial.

Nos últimos três dias tenho estado a aumentar a insulina rápida às refeições, mas esta noite o que vou fazer é aumentar uma unidade na insulina lenta, a da noite. Isso vai ajudar a baixar as glicémias durante todo o dia.

O contrário costuma acontecer quando ele está doente e come menos ou vomita durante algum tempo: nos dois dias seguintes parece ficar muito sensível à insulina e tenho de diminuir um pouco as doses.

Com o tempo, esta ginástica vai-se tornando mais fácil e vamos ganhando flexibilidade, como em qualquer actividade que requer treino e dedicação.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pequenos pormenores…que fazem toda a diferença


Os factores que influenciam os níveis de glicemia no sangue são bem conhecidos: quantidade de hidratos de carbono ingerida, intensidade e duração do exercício físico que se lhe segue, estado emocional…

Mas há pequenos pormenores que podem explicar porque motivo, comendo em dois dias diferentes as mesmas quantidades (e qualidades) de hidratos de carbono, fazendo o mesmo exercício físico e estando num estado emocional semelhante, os níveis de glicemia sejam muito diferentes.

Cozedura

Um prato de massa cozida al dente, ou seja ligeiramente dura quando se trinca, contribui para melhores valores de glicemia do que a mesma quantidade de massa, quando esta é muito cozida.

A massa muito cozida leva a uma absorção muito rápida dos açúcares, faz um pico de glicemia e a seguir os valores baixam rapidamente. Em contrapartida, a massa menos cozida faz com que a absorção dos açucares da massa seja mais lenta e equilibrada e, portanto, que os valores da glicemia na próxima medição sejam melhores.

Percebi isso porque o João tinha valores óptimos quando comia massa em casa e quando comia massa no infantário tinha sempre uma hipoglicémia na refeição a seguir. Agora já sei que a massa, no infantário, é muito cozida e, por isso, tenho de lhe dar meia unidade de insulina a menos do que daria em casa…

Água
Beber água (ou líquidos sem açucares, como chá) durante a refeição acelera a absorção dos açúcares – estes são mais rapidamente transportados para a corrente sanguínea.

Costumo incentivar mais o João a beber durante a refeição quando sei que os seus valores estão um pouco baixos.

Beber água no intervalo das refeições faz baixar o nível de glicemia, pois a água expulsa o açúcar, através da urina.

Por vezes, o João pede para comer um pouco mais depois de já lhe ter dado a insulina (e de não ter previsto aquela vontade súbita e inexplicável de comer pão a seguir ao jantar). Sei que a insulina que previ não cobre mais aquele bocadinho de pão, por isso tento incentivá-lo a beber mais água entre as duas refeições. Digo que tento pois não resulta muito bem: como qualquer criança de 4 anos, o João só quer beber água quando tem sede… Mas quando for mais velhinho, espero que esta técnica se revele útil!

Gordura
Uma fatia de pão com queijo leva a um melhor nível de glicemia do que uma fatia de pão simples. O mesmo acontece com as outras principais fontes de hidratos de carbono: um prato de massa com um molho com gordura leva a uma absorção do açúcar mais lenta e a níveis de glicemia mais estáveis, do que o mesmo prato de massa sem gordura.

Claro que temos de ter cuidado com a ingestão de gorduras, mas se estivermos a falar de um fio de azeite (não fervido), adicionado ao molho da massa depois de este ter saído do lume, não há quaisquer inconvenientes.

O João pede algumas vezes para comer o pão (ao pequeno-almoço, lanche ou ceia) sem nada. Diz que quer pão com pão. Deixo-o comer assim, mas quando termina proponho-lhe sempre que coma uma fatia de queijo ou um pouquinho de fiambre sem mais nada, para assegurar um pouco de gordura. Ele costuma ficar todo contente com a goluseima e eu fico mais descansada.

Fibras
Está muito na moda falar em fibras e nos seus benefícios para a saúde. Também no caso dos níveis de glicemia são muito úteis, pois levam a uma absorção mais lenta e equilibrada dos açúcares dos alimentos.

Uma das alterações que fizemos cá em casa, depois do diagnóstico do João, foi comprarmos uma máquina e pão e agora só comemos pão escuro (feito com farinha integral). Isto porque passámos vários meses a verificar as etiquetas dos pães de compra – integrais ou de mistura – e chegámos à conclusão de que quase todos eles contêm açúcar nos seus ingredientes…

Sólido ou triturado
Um alimento fonte de hidratos de carbono triturado ou moído (a batata ou a bolacha esmigalhadas, a fruta em sumo) levam a uma absorção mais rápida dos açúcares e a um pico de glicemia que pode ser seguido por uma hipoglicémia. É sempre melhor comer os alimentos em estado sólido, pois contribui para níveis de glicemia mais estáveis.

Aqui nos Açores temos umas bolachas de chocolate (as Mulatas) que têm o valor glicémico das bolachas Maria e que a nutricionista autorizou o João a comer regularmente. Como ele via os outros meninos a beber leite com chocolate e pedia também, tive a brilhante ideia de triturar uma dessas bolachas e juntar ao leite. Fica delicioso, mas afecta muito os níveis de glicemia dele, o que me intrigou durante muito tempo… até ter descoberto esta explicação!